Monday, June 25, 2007

Análise ao Livro "A Família em Rede" de Seymour Papert

“The Connected Family” ou “A Família Em Rede” na versão portuguesa é uma obra que apesar de não ser propriamente recente é a meu ver fundamental para se entender os computadores como parte da nossa casa e da nossa família. Possivelmente a minha geração não verá grande utilidade numa obra como esta, visto ter crescido já com os computadores a serem quase parte de nós. Contudo muitos pais dos nossos dias podem beneficiar com uma breve leitura desta obra.
Aqui encontramos exemplos práticos do bom e do mau uso dos computadores. E são feitas reflexões sobre as diferentes maneiras que nós temos ao ver o computador como peça do lar. O autor é sem dúvida a favor do uso das tecnologias no nosso dia a dia.
Papert no inicio da obra recorda situações por ele vividas, como o exemplo do neto Ian e a sua capacidade de escolher uma cassete de vídeo saber rebobinar a mesma e começar a ver o filme. Este pequeno exemplo serve de mote a uma reflexão sobre a independência que as crianças adquirem neste novo mundo tecnológico e a sua facilidade em lidar com o mesmo.
Este potencial de aprendizagem e descoberta tão típico das crianças tem de ser uma das forças motrizes para o diálogo e processos de partilha de aprendizagens entre pais e filhos. São ainda descritos pelo autor questões típicas da resistência de certos pais a esta fluência demonstrada pelos seus filhos por oposição as suas dificuldades. Estas diferenças podem levar a um fenómeno novo onde a tecnologia leva a comportamentos de tecnofobia em que as pessoas se sentem postas de parte pela tecnologia exemplo da ”Lisa”.
Papert aconselha as famílias a trabalharem juntas e juntarem os seus conhecimentos de informática, coisas simples como combinar processamento de texto com um desenho do Paint, são exemplos onde as famílias podem se respeitar e compreender os estilos de aprendizagem de cada um. Um dos conselhos de Papert que me agradou é usar uma estratégia que me parece adequada para quem ensina outra pessoa, basicamente é nunca culpar quem apreende mas sim colocar as culpas na máquina para que uma pessoa se possa ir familiarizando aos poucos.
Na obra são identificados por volta do capitulo 5 dois tipos de utilizadores de computadores, os planificadores e os de bricolagem. Pessoalmente sou sem duvida um adepto da bricolagem tal como Papert. Somos tipos de pessoas que usam o computador em constante descoberta, eu prefiro dizer em tentativa e erro sem medo do engano, e de voltar para trás, no lado oposto os planificadores são um tipo de utilizador que vê o computador para efectuar uma tarefa especifica sabendo de antemão os passos a dar e não se dirigindo para acções q não sejam planeadas e cujo resultado seja desconhecido. Estes dois tipos de utilizadores quando existentes na mesma família são uma fonte de aprendizagem mutua, pois se um planificador pode porventura efectuar uma tarefa de forma mais rápida, os conhecimentos de um utilizador do método de bricolagem pode servir para aumentar o grau de fluência e à vontade do outro.
Mais a frente no livro, são debatidos alguns problemas do uso das tecnologias no ensino. Por vezes são apenas usados como substituição de coisas que podem ser feitas a moda antiga e desse modo não enriquecem os alunos, pessoalmente recordo que o uso excessivo das apresentações electrónicas de forma monótona é um dos principiais usos do PC nas nossas escolas que regra geral não traz nada de novo.
Papert fornece alguns exemplos de bons usos das tecnologias no ensino entre os quais o da Jenny: esta jovem era considerada uma aluna normal, que ao se ver confrontada com um texto de palavras desordenadas, recorreu ao método de colocar caixas com grupos de palavras que achava mais sensato estarem no mesmo grupo, assim, sem quase dar por isso, ela própria aprendeu o conceito de gramática, ficando uma boa aluna. O computador não lhe ensinou directamente nada da gramática, mas ajudou a destruir obstáculos na aprendizagem.
Por varias partes da obra são analisadas posições sobre o uso dos computadores na educação, desde a importância de programas educativos bons, Papert menciona o LOGO (que se baseou no conceito de LEGO) como referência de um dos primeiros programas específicos. Hoje em dia já existem outros no mercado em especial a obra refere o MicroMundos como versão ampliada da linguagem LOGO, mas podíamos falar do Kid Pix ou de muitos outros.
Na leitura desta obra percebemos a utilidade da Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) mas também fica explicito que o seu bom uso é da nossa responsabilidade, as TIC devem ser capazes de usar o melhor possível o potencial das crianças dando oportunidade a crianças de satisfazer a sua curiosidade natural e desenvolver o pensamento critico para serem capazes de seleccionar não tudo o que é visto, mas o que lhes interessa.
Em suma as TIC vieram para ficar, cabe a todos nós saber enquadrar a nossa maneira de estar e ser às mesmas, e quando estamos a ensinar algo a uma criança com as TIC devemos ter presente um pensamento de Papert:
“O escândalo da educação reside no facto de que sempre que ensinamos algo estamos a privar a criança do prazer e do benefício da descoberta” (Papert, Família em Rede 1996: 103)
Esta única frase sumaria muito do que é referido no livro, esta é uma preocupação que deve seguir programadores de software educativo, pais e educadores, e nos deve acompanhar no futuro.
Papert tem o mérito nesta obra de fornecer indicações úteis para o uso no nosso lar destas TIC, quebra preconceitos relacionados com idades certas para usar os computadores. Para diferentes idades ele refere exemplos e métodos obviamente diferentes mas eficazes, recordo com gosto a forma como a senhora de 80 anos usa o computador ou os exemplos onde as crianças trabalham em parceria a pesquisar dados sobre tartarugas. Estes exemplos espalhados um pouco por todo o livro juntamente com alguns conselhos práticos divididos em passos ora para orientar o nosso uso do computador ou sugestões de como os pais podem intervir na escola.

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